"Tufas, a Princesa Crioula" conduz o leitor a mundos imaginários causando prazer aos sentidos - Dora Pires


"Tufas, a Princesa Crioula - Aprendendo as palavras mágicas”
, do autor Dai Varela, com participação especial de Luna Alvarez, é uma edição bilingue, português/inglês com tradução de Peggy Romualdo e ilustrações de Alberto Fortes. Aproveitamos para incentivar uma produção bilingue, mas português/língua caboverdiana, nossa língua materna.


A Literatura Infantil não tem uma finalidade prática e imediata, ela serve para despertar a sensibilidade que ocorre na criança ao ler o livro e aprecia-lo, serve também para as horas de lazer, fazer fluir a imaginação, o faz de conta, a invenção. Isso faz bem e é importante para as pessoas.

Diferente do que as pessoas imaginam a Literatura Infantil não tem que ter uma lição de moral ao final. Não são todos os livros que são considerados "literaturas infantis", que realmente são livros para crianças. É literatura infantil aquilo que as crianças gostem de ler e não aquilo que especificam ser literatura infantil.

Outro aspeto importante a ressaltar é que a literatura infantil não é feita só para crianças. Qual adulto não se encanta as vezes ao ler uma fábula, uma historinha que faz fluir sua imaginação?

 A Literatura Infantil é importante para ser trabalhada na formação da criança, pois em um primeiro momento ela será simbólica, a criança usará as emoções, o medo, a felicidade, a curiosidade, a expectativa coisas que irá mexer com os sentimentos da criança, o imaginário e muito mais.

Esse tipo de literatura deverá ser levada às escolas, contudo, não com a finalidade de fazer a criança ler por ler, não tornar os textos para alfabetizar e nem como didáticos. É preciso levar a Literatura Infantil paras as ESCOLAS com a finalidade de gerar arte, prazer para as crianças dos 2 aos 10 anos, desenvolver suas emoções e imaginações porque é uma riquíssima fonte de desenvolvimento para as mesmas.

 
Para o escritor e ilustrador André Neves, a literatura infantil serve "para aproximar o leitor da fantasia". Este autor pernambucano defende a 'literatura para a infância', que amplia e questiona o que hoje entendemos por "literatura infantil". Para ele, livros para a infância são aqueles que atingem e encantam não só as crianças, mas também a infância que habita cada adulto.

São livros sem rótulos para infâncias sem idade. Por isso, quando questionado para quê, afinal, serve a literatura para crianças, ele responde sem pestanejar que a finalidade é a fantasia, a imaginação, o devaneio.

Para o autor, o conceito de “literatura infantil” que temos hoje é superficial. “O que está raso na ideia de literatura para crianças é alguns livros serem classificados estritamente como meramente ‘infantis’, mesmo quando muitos deles carregam uma potência de perceção da infância dos adultos”, devemos sim ter a preocupação levar as pessoas, adultos e crianças a conhecer as muitas possibilidades do gênero a partir de uma imersão pela materialização de cenários e personagens literários, não só quando se estuda a literatura.

'Ler' uma imagem é tão importante quanto ler um texto.

O mecanismo que o autor utiliza para atingir essa aproximação com a fantasia é mesclar a narrativa visual com o texto. A história não fica só nas palavras e transborda para as imagens e para os muitos espaços em branco, exigindo do leitor a sensibilidade de colocar-se à disposição da imaginação. Isso faz com que não só as crianças se encantem com a história, mas também que os adultos encontrem nela uma oportunidade de resgatar o gosto pela imaginação.

Nesta obra que Dai/autor nos apresenta podemos encontrar isto. O autor usa os recursos à sua disposição conjuga-os com a imagem, os mesmos recursos de pensamento que ele alcança quando lê as palavras, e destaca a importância de nos alfabetizarmos para a leitura visual. “No caso da criança, é mais fácil que para o adulto. A criança está mais liberta para ler uma imagem, o adulto é que ainda não sabe como mediar essa leitura”, aponta.

A criança é capaz de olhar para as imagens e cria a sua estória ou depois de a ter escutado uma vez pode recontá-la através das imagens.
Nesta obra nos é apresentada a personagem principal, a Tufas, sua descrição – caraterização direta, retrato físico e psicológico e o espaço/lugar onde morava.

 “…linda Princesa Crioula que vivia muito, muito longe, perto do mar. Tufas, a princesa que também era conhecida por ser muita chorona, morava num castelo feito de sal das suas próprias lágrimas onde brincava com o seu bonito sorriso sem dois dentes da frente. Desde pequenina que a Princesa tinha tudo o que desejava: bastava começar a chorar. Quando era algo muito difícil de conseguir, ela tinha que se atirar ao chão a chorar e espernear muito para conseguir as lágrimas suficientes para ter aquilo que queria.”

Segundo, Marina Cabral, Especialista em Língua Portuguesa e Literatura ela nos diz que a Literatura é a arte da palavra. Podemos dizer que a literatura, assim como a língua que ela utiliza, é um instrumento de comunicação e de interação social, ela cumpre o papel de transmitir os conhecimentos e a cultura de uma comunidade.

A literatura está vinculada à sociedade em que se origina, neste caso sentimos um sentimento e influências cabo-verdianas neste texto, assim como todo tipo de arte, pois o artista não consegue ser indiferente à sua realidade. Como exemplo temos o contraste/oposição e as vezes redundância que é usada na nossa língua materna; fundo do mar raso, dedão mindinho, grande sábio que pouco sabia; atravessou ribeiras, subiu montes, desceu ribeiras até chegar a casa do sábio que por acaso vivia bem perto; amizade começa a partir do fim e grande monte baixo.

 

A obra literária é resultado das relações dinâmicas entre escritor, público e sociedade, porque através de suas obras o artista transmite seus sentimentos e ideias do mundo, levando seu leitor à reflexão e até mesmo à mudança de posição perante a realidade, assim a literatura auxilia no processo de transformação social.

E o assunto/tema apresentado é importante, o choro das crianças por tudo e por nada, teimosia, birra, a falta de educação, o mais básico que é o cumprimentar, agradecer e ser simpático uns com os outros que impede a amizade e a felicidade entre as crianças.

O autor mostra tudo isso através da personagem principal a Tufas e o Sábio Que-Pouco-Sabia que tenta ajudá-la para quebrar o feitiço da velha Bruxa do Fundo-do-Mar-Raso; o comportamento de tentar ter amigos à força daí que o cão, a tartaruga e o macaco negaram e quando foi simpática conseguiu cativar o príncipe Xipiti e assim conseguiu um amigo.

A literatura também pode assumir formas de crítica à realidade circundante e de denúncia social, transformando-se em uma literatura engajada, servindo a uma causa político-ideológica.

Chama atenção de forma implícita aos pais, sociedade, escola, governo, todos para preocuparmos com a educação, com a perda dos valores e dos bons hábitos que estão desaparecendo.

Podemos dizer que o texto literário conduz o leitor a mundos imaginários, causando prazer aos sentidos e à sensibilidade do Homem.

Presente nesta obra influência da nossa língua materna e a nossa cultura com expressões catar, flor de lakankan, na capa temos o Palácio do Povo na rua de Lisboa (Mindelo), a Princesa usa uma bata azul como as nossas crianças do Ensino Básico, e o autor articula muito bem os recursos que a literatura coloca à disposição do escritor, tais como as personagens Tufas, a Princesa Crioula, a Bruxa do Fundo-do-Mar-Raso, o Sábio Que-Pouco-Sabia, o cão, a tartaruga, o macaco e o Xipiti, o Príncipe da Canelas.

O tempo da história - passado - era uma vez, existiu/aconteceu, o Espaço onde desenrola a ação que inica com o micro espaço o palácio que vai alargando para um macro espaço, suas redondezas, montanhas, ribeiras, etc.
A linguagem adequa-se a cada personagem, simples e muito compreensível a qualquer idade que poderá ler a estória.

Recursos estilísticos, o contraste bem presente em vários momentos criando graça, prazer ao leitor, um conto ilustrado que cria mais fantasia mais imaginação ao leitor e que termina com o feitiço quebrado graças a amizade entre a Princesa Tufas e o Príncipe Xipiti que cativam um ao outro e as palavras magicas surgem, mágicas de fazer amizades.


Sejas menino ou menina diz sempre:
Com licença! - Porque é de boa-educação
E se fizeres uma má acão? - Desculpa!
Por favor! - Porque deixas toda a gente contente
E quando recebes um presente? - Obrigado!
São as palavras mágicas…
são as palavras mágicas de fazer amizade e ser feliz.

E acrescentaria palavras para todos, crianças e adultos também, pois precisamos de mais amor, paz, mais tolerância para sermos felizes.

Obrigado pela vossa paciência, crianças que comportaram muito bem e participaram e aos adultos pois espero ter criado em vós a motivação de comprar esta obra infantil para ler, para oferecer os filhos, netos, sobrinhos, irmãos e amiguinhos.

Mais uma pedra foi colocada no edifício da nossa literatura infantil cabo-verdiana.

Muito obrigado autor pela tua confiança depositada em mim.
 
NOTA: Transcrição do discurso da Dora Pires durante a apresentação do livro ilustrado “Tufas, a Princesa Crioula”, de Odair "Dai Varela" Rodrigues, com participação especial de Luna Alvarez e ilustrações de Alberto Fortes, e realizada na Biblioteca Municipal de São Vicente no dia 6 de julho de 2017.