“Tufas” é realmente uma princesa que veste a minha roupa - Evelise Carvalho

Olá a todos. Estou aqui hoje para partilhar convosco a minha leitura sobre o livro Tufas, a Princesa Crioula - A Caixa das Desculpas, da autoria de Dai Varela, com participação especial da Luna Alvarez, e ilustrações do Alberto Fortes.

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Porém, antes de falar sobre o livro gostaria de contar-vos uma história. Afinal o livro é sobre uma estória e eu também inventei uma, que na verdade é realidade e é só para explicar como cá cheguei. Eu nunca fiz a apresentação de um livro e, como podem ver, sou muito tímida também. O autor, Dai Varela, convidou-me para falar sobre “Tufas, a Princesa Crioula” de uma forma muito engraçada. Ele disse “olha Evelise, vamos tomar um café porque preciso falar contigo”. E eu: "e não dá para ser por mensagem?" E ele replicou"tenho um livro para oferecer-te e por ser grande e grosso não dará para ir por mensagem. Somente quando inventarem o teletransporte livreiro". Ele sabe que gosto de livros. E eu muito contente fui ter com ele. E ele ofereceu-me realmente um livro, mas junto com este tinha um pedido que era para cá estar hoje. Não dava o livro de graça, não é?!. E eu quando vi o título “A Caixa das Desculpas” pensei em usar uma desculpa para não vir, mas a verdade é que a caixa das desculpas não funciona com o autor. E pronto, tive que cá estar.

Enfim, pareceu-me ironia a altura exata em que li “Tufas, a Princesa Crioula - A Caixa das Desculpas”. Não sei se alguém contou as minhas últimas façanhas ao Dai Varela ou se simplesmente decidiu seguir os conselhos de uma das personagens da estória de nome Dr. Contradict - segundo o livro, uma criatura sempre bem arrumada e que agradava a Tufas com os seus sábios conselhos.que cá estar.

Eu li o livro e foi um prazer muito grande. Eu não sei se o autor já sabia em que momento da minha vida eu estava, mas pronto, é que a “Tufas” é realmente uma princesa que veste a minha roupa. Este é um momento em que estou a terminar o meu curso e tenho trabalhos por fazer. Mas o que é que eu faço? Invento desculpas. Eu tinha uma caixa de desculpas e nem sabia, e estava a usá-la “a torto e a direito”. A Tufas ensinou-me coisas muito interessantes e importantes que gostaria de partilhar tanto com todas as princesas e “princesos“, Tufas e Tufus que cá estão, os pequeninos, mas também com os pais, porque acredito que o livro tem lições profundas para ensinar.

 

Numa frase expressei ao autor que este livro é tão infantil quanto adulto. Sim, porque independentemente da idade que temos, e já agora do nosso sexo, somos ou, em algum momento, fomos Tufas e usamos a nossa caixa de desculpas. Por causa das lições que transmite, porque não são só lições para as crianças mas é para toda a gente. É que, aqui no livro, há lições dadas com os olhos fixos na terra, Cabo Verde. Verdadeiramente nunca pensei que iria ler um livro em que a Princesa é cabo-verdiana. Sabem, sempre gostei de livros e de literatura. De pequenina não poderia comprar, mas tomava emprestado as coleções brasileiras da “Turma da Mónica” e dos seus companheiros. Contudo, aquelas personagens não eram Cabo-Verdianas. Não tinham o cabelo crespo como o nosso, “es ka ta papiaba kriolo sima nos” e não conheciam a Terra-de-Vento--Terra que nós temos, não conhecem os mares, os nossos campos, os nossos agricultores, como nós conhecemos.

Porém confesso que hoje estou um pouco triste e com alguma inveja dessas crianças que vão poder ler este livro e sentir Cabo Verde como não pude sentir na minha infância. Vão poder ver que o nosso pano de terra, os nossos campos, os nossos agricultores, o nosso sol ardente, “as cicatrizes que as cores deixam marcadas no nosso céu” - como fala a Tufas no livro - o nosso mar, o nosso cabelo crespo e a nossa pele escura fazem parte da nossa realeza.

Essas crianças poderão ver que não é só o “Peter Pan”, a “Branca de Neve”, a “Cinderela” e tantos outros que vivem num mundo encantado. Vão poder sentir-se parte da estória e sentir a magia do mundo encantado, bem perto, aqui, em Cabo Verde. Agora, é redobrar os cuidados com os conselhos trépidos da “Bruxa do Fundo-do-Mar-Raso” (outra das personagens das estórias da Tufas) e que os pais saibam treinar os seus filhos, com literatura, a não se deixarem enganar por bruxas malvadas.

E o autor, Dai Varela, está de parabéns por nos ajudar a ver que Cabo Verde é um mundo encantado. E ao ler “Tufas, a Princesa Crioula”, tanto pais como crianças, peço-vos que viajem para este mundo encantado que está aqui, ao pé, porque nós temos os pés no mundo encantado. Somo realmente pessoas privilegiadas.

Mas agora vamos falar um pouco das lições. Este livro nos ensina que nós, independentemente da nossa idade, do nosso trono e do nosso grau de realeza também temos responsabilidades. E Tufas, muitas vezes, esquecia-se das suas. Por se achar Princesa, por estar muito ocupada com o seu diário, ou por ter um castelo tão grande, achava que podia fugir às suas responsabilidades. E, infelizmente, é o que nos vemos na nossa atualidade. Tanto pessoas adultas como os mais pequeninos a fugirem às suas responsabilidades. Esta estória dá a todos nós, não importa a idade que temos ou grau da nossa realeza, uma importante lição. Aliás, uma não. Várias.

A primeira é que, quando falhamos em cumprir com as nossas responsabilidades há, sempre, consequências. A segunda é que, quando somos ou pensamos ser autossuficientes a ponto de não precisarmos de bons conselheiros, mesmo que sejam de um Dr. Contradit ou de um Sábio-Que-Pouco-Saiba, cavamos nossa própria ruina. A terceira é que, os “tronos” que ocupamos, não fazem de nós pessoas incorrigíveis, haveremos sempre de precisar de ajustes e ou até de disciplina. E o resto? Espero que cada um de vocês descubra ao ler“Tufas, a Princesa Crioula - A caixa das Desculpas”. Que essas lições sejam inculcadas às nossas crianças.
 


Vou fazer algumas perguntas e espero que cada um de vocês responda muito sinceramente. Não precisa ser em voz alta. Quem de nós nunca inventou uma desculpa para não estar num lugar? Quem de nós nunca inventou uma desculpa para fazer uma tarefa? Quem de nós nunca inventou uma desculpa para não estar com alguém que não nos cai bem? Todos nos já, ou então para os que ainda não, vão ter essa feliz oportunidade. Mas o livro ensina-nos que quando nós usamos a ‘Caixa das Desculpas’ para fugir às nossas responsabilidades, infelizmente não podemos fugir às consequências da nossa irresponsabilidade. Então pais, ao lerem esta história para os vossos filhos, para as vossas filhas, ensinem-nos a ver o valor prático deste livro. Ensine-nos a ver o valor prático de serem responsáveis, porque nós temos um mundo encantado aqui em Cabo Verde, mas para que este mundo encantado prospere também temos que ter crianças responsáveis, que saibam ser príncipes e princesas com responsabilidade. Que cada um deles seja no futuro o reflexo do que vocês querem que este País seja. Então, ao ensinarem essas lições também ensinem a vocês mesmos, ensinem para não se esquecerem nem hoje e nem nunca.

E como sou muito tímida e não gosto de falar muito, deixo a minha apresentação por aqui, e espero que ao lerem o livro tanto para vocês como para os vossos filhos consigam descobrir muito mais daquilo que o livro tem. Consigam ver as lições e cada linha, e que sejam crianças ao lerem este livro. Criança, no sentido de serem humildes para verem o valor prático aplicado a vocês mesmos, e tenho a certeza que este livro vai mudar a vida de muitas pessoas, de muitas crianças.

 
Mais uma coisa que também fiquei com inveja é que o livro tem uma parte em língua cabo-verdiana e vão poder ler neste livro que tem versão bilingue. Eu tentei ler em crioulo mas não consegui, pois não é tão fácil assim, mas espero que para vocês crianças seja muito mais fácil. Vão poder ver no livro da Tufas que o nosso pano de terra, os nossos campos, os nossos agricultores, o nosso sol ardente,“as cicatrizes que as cores deixam marcadas no nosso céu”, o nosso mar, o nosso cabelo crespo e a nossa pele escura fazem parte da nossa realeza.

Obrigada